Augusto Cury 


O Semeador de Ideias 


Adaptao 
Cristina Paixo 



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Planeta Manuscrito 
Rua do Loreto, n. 16  1. Direito 
1200-242 Lisboa  Portugal 


Reservados todos os direitos 


de acordo com a legislao em vigor 
 2007, Augusto Cury
 2007, Editorial Planeta 
 2011, Planeta Manuscrito 


Reviso: Eullia Pyrrait 
Paginao: Segundo Captulo 
1. edio: Maro de 2011 
Depsito legal n. 322 202/11 
Impresso e acabamento: Guide  Artes Grficas 
ISBN: 978-989-657-156-6 


www.planeta.pt 


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Para a Camila, a Carolina e a Cludia, as 
minhas queridas filhas, que me transformam 
diariamente num eterno aprendiz. 
Elas irrigam a minha histria com amor e 
fazem-me entender que, sem o amor, os ricos 
se tornam miserveis e, com ele, os miserveis 
se transformam em abastados; sem o amor, 

o conhecimento torna-se uma fonte de tdio, e, 
com ele, um manancial de aventura. 
No sou um pai perfeito, mas considero-me 

o mais feliz do mundo. 
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Prefcio 


Este romance conta a histria de um homem internacionalmente 
poderoso que descobriu que a existncia  uma brincadeira no tempo 
e que o sucesso  cclico, tal como as tenras folhas que nascem na mais 
bela Primavera e se desprendem inevitavelmente no prximo Inverno. 
Ele percorreu lugares distantes e inspitos, travou batalhas enormes e 
depois de muitas fadigas descobriu que tudo o que procurava estava 
mais prximo do que imaginava. 

O mundo desabou sobre esse homem. Tornou-se um coleccionador 
de lgrimas. Profundamente deprimido, como se estivesse com 
a mente despedaada, saiu, primeiro, em busca do seu prprio ser e, 
posteriormente, da sociedade dos sonhos. Trado pelos amigos, asfixiado 
pelas perdas e pressionado pela culpa, tornou-se um Dom Quixote 
moderno que percorreu o mundo lutando contra os fantasmas 
que o assombravam. Mas percebeu que os piores fantasmas estavam 
dentro dele. Nessas andanas, libertou a sua inteligncia e retirou fora 
da fragilidade, coragem do medo, serenidade da loucura. Por onde 
andava reunia pessoas feridas, deprimidas, emocionalmente mutiladas, 
tratadas como escria ou lixo social. Tratou delas como um pai, 
protegeu-as como um amigo e nutriu-as como um semeador de ideias. 

Nessa jornada fez grandes descobertas. Descobriu que a indstria 
da pressa asfixiou a tranquilidade, a indstria da informao contraiu 
a formao de mentes pensantes e a indstria do consumismo 

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Augusto Cury 

sangrou a capacidade de nos encantarmos com a beleza escondida nas 
pequenas coisas. E, pior, descobriu que ele mesmo, quando era um dos 
homens mais poderosos do planeta, havia contribudo para acelerar 
essas indstrias e instalar o caos na sociedade. 

Para este intrigante homem, a sociedade digital estava a criar 
ilhas humanas. A solido tornou-se a angstia fundamental de adultos 
e crianas, embora nem sempre percebida. Eram tempos difceis. 
Tempos de escassez de prazer e de abundncia de ansiedade. Tempos 
em que se procuravam novos heris, sem saber que a necessidade vital 
da humanidade no era de heris, mas de seres humanos conscientes 
da sua fragilidade e das suas imperfeies. 

Neste romance psiquitrico e sociolgico, procuro dissecar algumas 
masmorras psquicas e algumas loucuras da actualidade. Nele h 
elementos autobiogrficos. As preocupaes, a sede de respostas e as 
interrogaes que pulsavam na mente do protagonista pulsam tambm 
em mim 

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Captulo 1 

O Semeador de Ideias 

Sempre me fascinou estudar seres humanos que marcaram a 
histria da humanidade. Alguns pelo seu imaginrio, como Newton, 
Einstein e Freud; outros pela sua determinao estratgica, como 
Lincoln, Churchill e Martin Luther King; outros pelo poder do silncio 
e da sensibilidade, como Maria, Gandhi e Confcio; e outros, 
ainda, pelo poder influenciador das palavras, como Moiss, Rousseau, 
Voltaire e Marx. Quando pensava que mais ningum me surpreenderia, 
eis que encontrei um homem de cabelos revoltos, roupas rasgadas 
e remendadas, um verdadeiro maltrapilho, sem qualquer glamour 
social, mas que, apesar disso, abalou a minha mente e me atraiu com o 
seu magnetismo intelectual. Encontrava-me nos vales mais profundos 
da dor psquica. Cativado, passei a segui-lo, no como um religioso ou 
um idealista poltico mas como uma fonte borbulhante de indagaes 
e como engenheiro de ideias. Caminhei ao seu lado, correndo todos os 
riscos possveis e imaginveis. 

Eu, um professor doutor em sociologia, escritor, especialista em 
marxismo, orientador de teses, ao andar com ele, descobri alguns 
dos meus fantasmas. Era um eglico. No era um alcolico, mas 
vivia embriagado com os meus ttulos e conhecimento acadmico. 
Sabia mais do que os meus pares sobre o socialismo, a relao capital-trabalho, 
a socioeconomia dos grandes imprios. Era um expoente na 
universidade, sabia conviver com livros, mas no com seres humanos. 

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Sempre fui tenso, irritadio, impulsivo, intolerante. Resilincia, quase 
zero. No aceitava ser contrariado, criticado, confrontado. Adorava 
expor as falhas alheias, mas escondia as minhas debaixo do tapete da 
minha intelectualidade. Humildade e sensibilidade no faziam parte 
do dicionrio da minha existncia. 

Certa vez, o maltrapilho olhou-me bem nos olhos, como se estivesse 
a penetrar na minha mente e a desvendar o meu passado turbulento, 
e advertiu-me, assim como aos restantes discpulos: 

 A humanidade no precisa de heris nem de deuses, mas de 
seres humanos que reconheam as suas tolices e assumam as suas 
limitaes e imperfeies. Vocs so deuses ou seres humanos? 
Eu julgava-me um ser humano, dava cursos sobre incluso social, 
mas confesso que sempre me comportei como um deus inquestionvel. 
Em seguida, ele continuou: 

 Todos os heris vem a sua fora esfacelar-se um dia, h sempre 
um momento em que ela diminui. Todos os pensadores se deparam, 
mais cedo ou mais tarde, com as suas loucuras. E todos os mestres, na 
sua caminhada, se tornam um menino diante do inexplorado. 
As suas palavras pareciam prever a tragdia que em breve lhe aconteceria; 
alis, a segunda tragdia. A primeira ocorrera havia poucos 
anos, quando sofreu a perda de toda a famlia. A agenda humana 
recomenda que os filhos enterrem os seus pais. Pais que enterram os 
seus filhos experimentam o ltimo estgio da dor humana. O meu 
Mestre no s viveu essa dor como, alm disso, no enterrou os dois 
filhos e a sua querida esposa, uma vez que no encontrou os seus corpos 
no acidente de avio que ceifou as suas vidas.  provvel que a 
psicologia no tenha esquadrinhado angstia to espantosa como 
a que ele enfrentou. Tornou-se o mais devastado dos homens. Perdeu 
tudo, sobrou-lhe o irrelevante: um status social elevadssimo, poder 
poltico internacional e uma das maiores fortunas do planeta. 

Tratamentos psiquitricos e psicoteraputicos aliviaram-no, mas 
no suavizaram o drama da perda nem lhe devolveram o oxignio da 
alegria. Tinha crises frequentes. As imagens do passado, a saudade 
incontrolvel, o vazio emocional, a culpa, tiravam-lhe a concentrao 

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e torpedeavam-lhe a mente. Queria voltar atrs no tempo e ter cinco 
minutos para mudar a sua histria. Mas como? Talvez por isso nos 
alertasse sempre: 

 A morte  cruel. Digladia-se com intelectuais e torna-os meninos. 
Debate com ateus e transforma-os em tmidas crianas. Guerreia 
contra generais e torna-os frgeis combatentes. Batalha com milionrios 
e sepulta-os na lama da miserabilidade. Peleja contra celebridades 
e f-las beijar a lona da insignificncia. A vida d-nos sempre outras 
oportunidades, a morte nunca. 
A morte cerrou-lhe as janelas das oportunidades e revelou a sua 
pequenez. Sempre achou que poderia ter feito muito mais pelos filhos 
e pela esposa. Amava-os, e muitssimo, mas pouco a pouco colocou-os 
no rodap da sua histria, trocou-os por reunies de trabalho interminveis. 
Procurava viver o tempo qualitativo, construir momentos 
solenes dos mseros minutos que tinha para eles. Talvez por isso eles o 
amassem tanto, mas queriam tambm o tempo quantitativo, queriam 
rebolar do tapete, passear juntos, envolver-se em peripcias. Mas ele 
no tinha tempo nem para si prprio. Era um homem que diariamente 
tomava grandes decises que envolviam a vida de milhares de pessoas. 
Nos ltimos dois anos, chegava a casa esgotado, sem energia. Era um 
escravo que anunciava internamente que em breve faria uma grande 
cirurgia na sua agenda. Todavia, a morte bateu-lhe  porta e fechou-lhe 
a agenda. 

Ele guardava importantes segredos que ns, os seus discpulos, 
desconhecamos. O que o levou a tomar a deciso aparentemente 
insana de sair pelo mundo, sem rumo, sem endereo, sem mapa? 
Como pode algum que foi fotografado, aplaudido, colocado no centro 
das atenes sociais optar por ser um indivduo pauprrimo? Por 
que fala pouco sobre o seu passado? Saiu sem nada, sem dinheiro, 
carto de crdito, cheques, seguranas, carros. Saiu em busca do elo 
perdido, como um Dom Quixote que deambulava pelas ruas da cidade 
moderna, lutando contra os monstros que encontrava pelo caminho, 
e, por fim, descobriu que eles estavam dentro de si. Talvez por isso, h 
um ms atrs nos tenha abalado com estas palavras: 

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 Se considerarmos a personalidade humana como um grande 
edifcio, a maioria dos seres humanos nunca saiu do piso trreo, da 
sala de recepo. Sim, a maioria jamais entrou no subsolo da sua 
mente nem nos andares mais elevados da sua inteligncia. So desconhecidos 
de si prprios.  Depois destas palavras, fitou-nos e disse: 
 Eu era um estranho para mim mesmo. Um estrangeiro na minha 
prpria terra. E vocs? 
 Eu?  tive de admitir tambm   eu dava aulas, conversava 
com as pessoas, telefonava, fazia relatrios, discutia com alunos, 
debatia as teses socialistas e capitalistas, mas raramente saa da sala 
de recepo da minha psique. Por isso, quando adoeci e precisei de 
procurar psiquiatras e psiclogos, resisti. No tinha medo deles, at 
porque era mais culto do que vrios desses profissionais, mas tinha 
medo de mim, tinha medo de me encontrar. 
 Eu j fui para o subsolo da minha mente  disse Bartolomeu, o 
discpulo que vivia bbado pelos bares da vida e cado pelas ruas. Era 
o mais sincero e de lngua mais incontrolvel. Em seguida completou: 
 Encontrei cada assombrao, de causar um frio na espinha. 
De facto, todos ns temos os nossos monstros, mas muitos preferem 
neg-los ou escond-los. O Mestre era transparente, ia-nos ensinando 
dia a dia a ter contacto com as nossas mazelas e misrias, a 
superar a necessidade neurtica de ser perfeito. Mas por quanto tempo 

o seguiremos? Deixar um dia de ser um maltrapilho? Como ser no 
futuro a nossa relao com ele? Nenhum discpulo tinha a resposta. 
Nem ele sabia sobre o amanh, s sabia que tinha sido um prisioneiro 
no passado. E falou de algumas das suas algemas nos tempos de glria: 
 O dinheiro pode transformar manses em prises, empresas 
em masmorras e terras em ilhas. Eu tinha belssimos jardins, mas 
quem desfrutava das flores eram os meus jardineiros. Quem era rico? 
Eu ou eles? 
Ele no tinha medo de dizer que era um miservel a morar num 
palcio. O homem, detentor de um dos mais elevados status internacionais, 
caiu do pinculo da sua glria para os patamares mais baixos 
da miserabilidade social ao perder toda a sua famlia. E quando, na 

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condio de maltrapilho, parecia que no tinha mais nada de valor, 
encontrou valores inestimveis. Ao abrir a sua boca destemida e 
espontnea, tornou-se um plo de atraco para as pessoas. Por onde 
passava resgatava mentes feridas. Dava-lhes conforto, ateno exclusiva, 
provocava-lhes o intelecto bloqueado, instigava-as  genialidade. 
s vezes calava-se e dava-lhes apenas o ombro para chorarem. Fazia 
isso como forma de respirar, de se sentir um ser humano. 

Encontrou, pouco a pouco, dias felizes ao lado do complexo e 
complicado grupo de discpulos, entre os quais figuravam vigaristas, 
espertalhes, alcolatras, drogados, psicticos, deprimidos, socilogos, 
modelos, professores. Alguns deles metiam-no constantemente 
em confuses. Mas, em vez de protestar, descontraa-se com os nossos 
disparates. 

 Quem exige muito de si e dos outros est apto para lidar com 
nmeros, mas no para conviver com seres humanos. 
Tinha sido um homem que exigia muito dos outros e de si. Mas 
flexibilizou a sua mente ao tomar conscincia de que a existncia  
uma pequena brincadeira que se encerra rapidamente no pequeno 
palco de um tmulo. 

No incio da nossa jornada, no sabamos quem seguamos. 
S agora, passados muitos meses, estvamos a conhecer essa misteriosa 
personagem. E descobrimos a sua identidade por causa da 
segunda tragdia que viveu: a causa pela qual a vida da sua famlia 
fora ceifada. Procurou dia e noite uma explicao para o acidente, 
mas nunca encontrou uma resposta satisfatria. Ento, uma pequena 
mensagem, que lhe chegou por meio de um estranho, esfacelou a sua 
alma e revelou algo inimaginvel: o acidente areo que extirpou a 
sua famlia no acontecera por avaria no motor ou falha do piloto, 
mas por um acto terrorista. E ele era o alvo. 

Gostaria de ter o seu perdo, mas no exijo que me perdoe. Sei que 
todos os homens tm os seus limites, principalmente quando atingem os 
seus filhos. Saiba que dois dos seus grandes amigos da Megasoft encomendaram 
um assassinato. Os seus filhos no morreram num acidente. 

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Todos pensavam que voc estaria no voo JM 4477 do dia 23 de Maro. 
Voc era o alvo. 

A mensagem era misteriosa, trazida por um mensageiro estranho, 
e fora escrita por algum que conhecia muito bem o passado 
do Mestre. Por que razo a mensagem s chegou agora? Arrependimento? 
Vingana? Queima de arquivo? No sabamos, nem ele, mas o 
facto  que os dados eram reveladores, citavam a sua empresa e davam 
especificaes do nmero de voo. Nunca mais se esquecera daquele 
voo, do dia e da hora de embarque. Programara aquelas frias com os 
filhos e a esposa. Estava eufrico com a viagem, precisava de descansar, 
necessitava de desfrutar das suas crianas, sentia que elas estavam 
a crescer e no conseguia acompanhar o desenvolvimento delas. Mas 
desta vez no queria viajar num jacto particular, queria ir num avio 
comercial da sua companhia area, que era um dos seus mais novos 
empreendimentos. No ltimo momento, por causa de um compromisso 
urgente surgido na sala de embarque, no conseguiu embarcar, 
mas os terroristas no receberam essa informao. Para destruir um 
homem, eliminaram impiedosamente 105 pessoas. A vida, cujo preo 
 incalculvel, foi reduzida a valores irrisrios. 

Sempre que encontrava um pai a protestar por causa da vida, do 
salrio, da empresa, ele olhava para o filho que estava ao seu lado e 
chocava-o: 

 Quanto vale o teu filho? 
Espantado, o pai dizia: 
 No tem preo! 
 Ento tu s o mais rico dos homens. 
Imagino o drama que passava pela sua mente por j no ter as 
pessoas que amava e por ter sido a causa da sua perda. O sucesso foi 
a sua desgraa. Ele sabia muito bem o estrago que o sentimento de 
culpa, quando intenso, pode causar na mente humana. Um ms antes 
de essa dramtica notcia vir  tona, o Mestre passeou pela histria da 
filosofia e comentou que Scrates, grande pensador grego, ao ser sentenciado 
a beber a cicuta, que produzia a morte por envenenamento, 

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minutos antes de a beber pediu aos seus discpulos que saldassem uma 
dvida. Era a dvida pequena de uma ave, um galo, mas ele fazia ponto 
de honra em a deixar resolvida. 

 Quem se preocuparia com dvidas  beira da morte? Scrates 
preocupou-se. A cicuta asfixiaria os seus pulmes e paralisaria o 
seu corao, mas a culpa no envenenaria a sua emoo. Os venenos 
intoxicam o corpo, mas a autopunio gerada pela culpa faz sangrar a 
alma. E Scrates sabia isso. 
A notcia que acabara de receber produziu uma violenta auto-punio, que fez com que a sua alma sangrasse de imediato. E agora? 
Os monstros da perda e da saudade estavam razoavelmente domesticados, 
mas o sentimento de culpa alastrou de sbito no subsolo da 
sua mente, ganhando propores fantasmagricas. Algumas dvidas 
importantes so possveis de saldar. Mas como saldar a dvida desse 
pai dilacerado? No era possvel! A quem pedir perdo? Aos filhos, 
 esposa? Eles foram-se! Como corrigir o passado, se ele  irrevogvel? 
De facto, o gigante apequenou-se ao mximo. Caiu de joelhos e 
prostrou-se com o rosto na terra. Os seus lbios tremiam, e ele bradava 
inconsolvel: 

 Os meus filhos morreram por minha causa! Por minha causa! 
No! No! 
Imagens dos seus filhos a correr, a abra-lo, a beij-lo percorriam 
o seu intelecto e misturavam-se com a realidade. O mdico 
de mentes fragmentadas que protegia os desprezados da sociedade 
tornou-se o mais ferido dos seres humanos. No havia palavras que 
descrevessem a sua crise. Eu fiquei mudo, no tive reaco. O sbio 
tornou-se um menino sem nada nem ningum, completamente desprotegido. 
Com a face sobre os joelhos, balbuciava para si mesmo: 

 Perdoem-me! Perdoem-me. Eu amo-os, mas no os protegi. 
Perdoem-me.  E, apertando a cabea com as mos e friccionando os 
cabelos, vociferava angustiado, como se estivesse a alucinar:  Tranquilidade! 
Qual  o teu preo? Onde ests? 
Sabia que a tranquilidade valia mais do que o ouro e a prata. Sem 
ela, reis enlouqueceram; com ela, sbditos miserveis tornaram-se 

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ricos. Sem ela, generais vitoriosos forram derrotados; com ela, perdedores 
recomearam a sua vida, resgataram o prazer de viver. Daria 
toda a sua fortuna em troca de tranquilidade, mas sabia que ela era 
invendvel. Procurava-a como um nufrago que alucina. Lembrei-me 
de quando, h trs meses, ele abordou a filosofia da dor: 

 Quando a dor psquica nos encontra nas curvas da existncia, 
todas as nossas diferenas desaparecem. Deixamos de ser judeus e rabes, 
psiquiatras e pacientes, ricos e miserveis, e tornamo-nos apenas 
seres humanos desesperados em busca de paz e conforto. 
Pensei eu: a criatividade e a audcia despedir-se-o definitivamente 
da sua alma; a sensibilidade e a paz de esprito transferir-se-o 
da morada da sua mente para nunca mais voltar. E ainda analisei para 
comigo: a sua voz no entoar mais melodias, nem o seu intelecto 
semear mais ideias. A sua inteligncia confinar-se- a um crcere 
insolvel. Ser um homem condenado a viver dia e noite nos vales 
srdidos da depresso e nos terrenos desrticos da culpa. Enfrentou 

o terror de fora com incrvel determinao, inclusive vaias, vexames, 
espancamentos e riscos de morte, mas ser silenciado pelo terror 
de dentro. E, sobre esse subtil pavor, certa vez comentou connosco 
metaforicamente: 
 No tropeamos nas grandes montanhas, mas nas pequenas 
pedras. Os vrus matam-nos mais do que os grandes inimigos exteriores. 
Quais vrus? Os do humor depressivo, da autopunio, do medo, 
dos pensamentos perturbadores que se alojam em ns e ningum v. 
O terror de dentro injectou colnias de vrus na sua mente, bombeando 
pensamentos inquietantes do recndito do seu ser, que o 
algemavam ao banco dos rus e o sentenciavam aos gritos: Culpado! 
Culpado! O seu crebro stressado fazia com que o trax vibrasse e os 
pulmes galopassem numa busca desenfreada por ar. Para mim, ele 
estava em colapso psquico e dele no sairia. 

Ele preocupava-se com os vrus mentais, e eu, com as armas de 
fogo. Em breve, as foras ocultas e malvolas que eliminaram os seus 
entes queridos elimin-lo-iam. Senti calafrios na espinha ao pensar 
que ele estava a ser caado como um rato num poro. Provavelmente, 

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nesse exacto momento, j estava sob a mira de um atirador de elite. 
Ideias persecutrias abalaram-me. Ao que parecia, era um milagre 
estar vivo at agora. 

No entendo por que queriam mat-lo, mas  provvel que a sua 
cabea valesse mais dinheiro do que um pobre professor de sociologia 
conseguisse contar. Preocupadssimo com a nossa segurana, 
sentenciou que daquele dia em diante no queria ser seguido por mais 
ningum. A grande aventura acabou, o sonho dissipou-se como gotas 
em terra rida. 

 Por favor Partam! Aprendi a amar-vos, mas mais ningum  
sim, mais ningum deve morrer por minha causa. 
Um filme sem guio, cujas personagens haviam morrido no trgico 
acidente, passava na sua cabea. Pensava nos pais que se foram, 
nas mes silenciadas, nas crianas que nunca mais brincariam. Estava 
indignado e inconformado. Os seus brados altissonantes atraram 
como mel os transeuntes famintos de emoes: 

 Porqu?! Porqu?! O que fiz eu para ser protagonista de tanta 
dor?! Onde falhei? A quem feri? Porqu eles e no eu? 
Batia no peito com a mo direita como se quisesse arrancar o 
seu corao ainda a pulsar o sangue. Ao contrrio dos lderes mundiais 
que levaram os seus filhos para a guerra sem sentimento de 
culpa, ele tambm fora um lder mundial, mas, embora imperfeito, 
deprimia-se por cada inocente que morrera indirectamente por sua 
causa. 

Quem poderia ajudar uma mente inteligente como a dele? Quem 
poderia alivi-lo? Se psiquiatras e psiclogos se perturbavam com a 
sua genialidade e o admiravam, alguns at seguindo-o informalmente, 

o que dizer de mim mesmo, que me sinto impotente?! Conheo os 
meus limites, visitei os vales srdidos da auto-rejeio e da desmotivao. 
Queria desistir de viver, mas este homem, ao encontrar-me, 
chocou-me dizendo que os suicidas tm fome e sede de viver. Fiquei 
assombrado e, ao mesmo tempo, deslumbrado com a sua afirmao. 
Eu, quando penso em morrer, na realidade estou a manifestar sede de 
viver? Que loucura  essa?, reflectia. No fundo descobri que ele estava 
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coberto de razo. Os suicidas so apaixonados pela vida, mas detestam 
conviver com a dor. Fui iluminado psiquiatricamente. 

Pela primeira vez chorei  frente de outro homem sem freios. 
Passei a encarar os meus fantasmas. Resgatei a gana de viver. Fiquei 
to grato que iniciei com ele uma bela caminhada. Entretanto, todas as 
histrias esgotam as suas vrgulas e terminam num clido e seco ponto 
final. No posso fazer nada por ele, nem ele mais nada por mim. Era 
mais seguro seguir o seu conselho e partir. Foi o que fiz. Amargurado, 
virei-lhe as costas e fui reconstruir a minha agenda. Os restantes discpulos, 
trmulos, ficaram. Eram mais romnticos do que eu. 

Quando estava a dez metros de distncia, entrei em pnico. 
O homem cuja alma sangrava, em colapso mental, falido pela culpa, 
sem condies de raciocinar, levantou-se, abriu os braos para o cu e 
comeou a proclamar como o mais lcido dos loucos ou o mais louco 
dos lcidos. No sei ao certo. 

Durante a caminhada que fiz com ele, vi-o debater com intelectuais, 
polticos e grandes executivos e silenci-los; agora, por mais 
inacreditvel que parecesse, resolveu chamar para o debate Aquele 
diante de quem grande parte da humanidade se ajoelha: deus. Com 
bramidos dramticos, fez uma bateria de indagaes: 

 Quem s Tu, que Te escondes atrs do parntesis do tempo? 
Quem s Tu, que desdenhas da nossa intelectualidade e sorris das nossas 
loucuras? Tens Tu prazer em tornar os pensadores, crianas, os 
filsofos, tmidos e os religiosos inseguros para falar de coisas que no 
entendem? s Tu o Autor da vida? Criador? Todo-Poderoso? Se Tu s 
Todo-Poderoso, por que no discutes comigo sobre as minhas inquietaes? 
No admites que os diminutos debatam Contigo? Proponho 
uma mesa-redonda entre Ti, colossal, e eu, frgil! Nela depositarei as 
minhas lgrimas e indecifrveis dvidas, bem como as perguntas que 
os homens no tm coragem para formular. 
Perturbei-me com as suas indagaes. No  possvel, pensei. 
Em vez de se prostrar diante de Deus, chamou-O para um debate. 
E ningum previa o que seria discutido. Depois desse episdio, ele deixou 
de ser um vendedor de sonhos e passou a ser um ousado semeador 

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de ideias. E ns, depois de presenciarmos o seu debate, nunca mais 
seramos os mesmos. No fomos ns apenas, que o seguamos, a ficar 
perplexos; aconteceu tambm com uma multido que se aglomerou 
ao redor dele, emudecida. Judeus, muulmanos, cristos, budistas, 
agnsticos, ateus, havia todas as correntes de pensamento naquela 
praa movimentada. Ele continuou com as suas perguntas: 

 Por que Te calas, Todo-Poderoso? Porque sou impuro? Por que 
retns as Tuas palavras? Porque Tu s uma iluso do crebro humano 
ou porque sou mortal, torpe, prepotente? Se Tu s o Autor da vida, 
tenho direito a uma audincia. 
Alguns religiosos radicais, ao ouvirem o seu protesto, rangeram 
os dentes e consideraram-no o mais insolente dos hereges. Dois deles, 
num mpeto de fria, arrancaram pedras da calada e atiraram-lhas 
para cima sem piedade. Uma delas, que mal cabia na palma da mo, 
atingiu-o no ombro direito, e a outra, mais pequena, na face esquerda, 
traumatizando-a e abrindo uma ferida de dois centmetros. Temi que 
fosse linchado em praa pblica. Teve uma vertigem. Mal se aguentando, 
ele mesmo conteve o tumulto com as mos, e fez um sinal aos 
seus discpulos dizendo: 

 No intervenham! No importa se morro. Se me calar, j estarei 
morto. 
A sua dor psquica era to ampla que minimizou a dor fsica. 
Alguns pensavam que fosse um cptico ateu a expurgar a sua revolta; 
outros, um filsofo que resolvera espantar as perturbaes da sua 
mente. Havia espectadores que pensavam que fosse um psictico a 
delirar. Mas ele era um ser humano com sede insacivel de explicaes. 
A cena, de qualquer forma, era chocante. Era um homem culto 
e eclctico, passeava pela fsica e pela filosofia com habilidade. A sua 
mente era um poo insacivel de perguntas. 

Tomou flego para continuar o seu intrigante debate: 

 s Tu o insondvel, o Alfa e o mega? A Tua histria  um 
eterno recomeo, em que princpio e fim se entrelaam num crculo 
atemporal e interminvel? Se no tens princpio nem fim de existncia, 
Tu transcendes o espao-tempo, e, se transcendes, onde estavas 
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Augusto Cury 

Tu na primeira fagulha da existncia quando o universo se formou h 
14 bilies de anos na grande exploso, no Big Bang? Que pensamentos 
permeavam o Teu psiquismo? 

Deu um n na nossa mente. E em seguida bradou: 

 Tu s a causa fundamental ou um delrio do psiquismo humano? 
Mas no podes ser um delrio, pois ex nihilo nihil fit (do nada, nada se 
faz). O nada  eternamente estril. O nada nunca poderia ter despertado 
do pesadelo da inexistncia para o sonho da existncia. Nem a 
teoria do Big Bang, ou a do Universo Oscilante, ou a do Universo Esttico 
se desenvencilharam de uma causa fundamental. Tu tens de ser a 
Causa das causas. Se Tu no tens origens, se sempre foste, se s a Causa 
fundamental, eu tenho o direito de saber as origens da existncia, porque 
sou parte dela. Que instrumentos usaste Tu para brincar com a 
fsica, com as leis da termodinmica, com as foras gravitacional e 
nuclear? Os planetas e as estrelas, bem como a vida, so quase improbabilidades, 
e Tu sabe-lo muito bem. Se a taxa de expanso do universo 
um segundo aps o Big Bang tivesse ocorrido a uma velocidade 
mais baixa do que um em cem mil trilies, a fora gravitacional teria 
colapsado o universo, gerando uma grande exploso. E, se se expandisse 
a uma velocidade infinitesimalmente maior do que se expandiu, 
no se formariam estrelas e planetas, e uma vez mais no haveria vida. 
Pensaste nisso ou o improvvel ocorreu da loucura do acaso? 
Ao ouvir as suas interrogaes ditas para o ar, fiquei intrigado 
com a sua cultura. Nunca tinha pensado que a possibilidade de existirem 
planetas e estrelas, do ponto de vista estatstico, era absurdamente 
pequena. Nem mesmo que a existncia da vida era quimicamente to 
improvvel; que a probabilidade seria mais baixa do que a de um 
atirador localizado em Nova Iorque acertar numa mosca em Paris 
centenas de vezes, de seguida. Talvez por isso o Semeador de Ideias 
fosse um homem que exaltava a vida como um show espectacular. 
Mas, nesse momento, estava desapontado com o Autor da existncia. 
Por isso, disse: 

 No Te cales, peo-Te. Se fores o Arteso superinteligente da 
existncia, tens uma personalidade, como eu tenho. E, se tens, por que 
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O Semeador de Ideias 

no mostras a Tua identidade e respondes s minhas interrogaes? 
Ns, humanos, amamos o reconhecimento, ainda que no o confessemos, 
mas por que Te escondes atrs da cortina do espao? Que personalidade 
 essa? Por que Te silencias nos bastidores do teatro do tempo 
e no alardeias os Teus feitos no palco? Que intelecto  esse? Por que 
preferes que os seres humanos construam milhares de religies para 
que Te tacteiem no escuro? Eu, pequeno, frgil, um tomo errante, 
mas pensante, definitivamente no Te entendo. 

A sua sequncia de perguntas provocava o nosso crebro. No 
tnhamos tempo para respirar e reflectir. Aps uma breve pausa, comeou 
a entrar no centro das suas dvidas. Mas, at quele momento, 
no sabamos aonde queria chegar. 

 Quero entender pelo menos as camadas mais superficiais da 
Tua mente, , Desconhecido! O que fazias em todos os infinitos 
estgios que antecederam os 14 bilies de anos da existncia do universo? 
Que pensamentos e imaginaes se encenavam no Teu intelecto 
no tempo antes do tempo? Como vivias? O que Te animava? O que 
Te motivava? O que movimentava a Tua emoo se estavas s, mergulhado 
nas tramas insondveis do vcuo, onde o tudo e o nada eram a 
mesma coisa? Que sentido existencial irrigava a Tua emoo, se no 
ouvias nem falavas com nenhum ser, a no ser Contigo mesmo? O que 
Te distraa, se no havia um tomo para observar ou uma imagem 
para contemplar? Quem suportaria essa solido, por mais alegre e 
emocionalmente forte que fosse? 
Ficmos todos assombrados com as suas indagaes. Telogos, 
judeus, muulmanos, cristos e outros que estavam presentes passaram 
as mos sobre a testa tentando conter o suor. Estavam perplexos, porque 
aquelas perguntas no tinham feito parte do cardpio dos seus estudos. 
Entretanto, alguns religiosos fundamentalistas voltaram a enfurecer-se 
com tais argumentos. Para eles, um homem mentalmente saudvel 
no deveria apresent-los. Um deles aproximou-se e esbofeteou-o 
sem piedade na face esquerda, produzindo um estalido agudo. Outro 
esmurrou-o sbita e violentamente na boca, provocando-lhe uma 
hemorragia no lbio inferior, dizendo-lhe: 

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Augusto Cury 

 Louco! Insano! Quem pensas que s? 
O Semeador de Ideias caiu. Comeou a sentir uma vertigem mais 
intensa, quase desmaiou. Os agressores foram contidos rapidamente. 
Mas ele fez sinal para que no os agredissem. Tentmos ajud-lo a 
levantar-se e a retirar-se daquele Coliseu moderno, mas, por insano 
que fosse, insistiu em ficar. Fitou o seu ltimo agressor e disse-lhe 
com delicadeza: 

 Sou um homem saturado de erros, mas que tenta entender 
Aquele em quem tu crs. 
Onde foi ele buscar essas ideias?, pensei eu. Por que as expe? 
Conheci o pensamento de Diderot, Marx, Nietzsche, Freud, Sartre 
e tantos outros ateus que queriam banir Deus da mente humana e 
da sociedade. Conheci tambm o pensamento de Santo Agostinho, 
Toms de Aquino, Espinosa, Descartes e tantos outros que de alguma 
forma procuraram Deus nas entrelinhas da existncia e na arena do 
conhecimento. Mas nunca tinha tido contacto com as indagaes que 
acabara de ouvir. Estvamos to atnitos com o Semeador de Ideias 
que os roncos dos motores em volta da praa se tornaram imperceptveis. 
O crculo aumentava em torno daquele homem cambaleante. 
Estava a morrer, mas precisava de continuar o debate com o Autor 
da existncia. Dava a impresso de que o tempo tinha parado. No 
entendamos bem aonde queria chegar. Mas, pouco a pouco, as nuvens 
dissiparam-se da nossa mente. Depois de fitar os seus agressores, pensei 
que no tivesse mais energia cerebral para continuar o seu debate. 
Enganei-me. Ainda que Deus se mantivesse calado ou respondesse de 
forma inaudvel, o debate aqueceu. O homem que eu seguia retomou 

o assunto da solido e disparou para o alto: 
 Eu, humano, contrado na minha emoo e limitado pelo meu 
intelecto, no suportaria nem uma pequenssima fraco da solido 
que Tu viveste, Eterno. A solido branda inspira a minha inteligncia, 
mas a solido plena despedaa a minha mente, aborta o meu 
prazer de viver. At os psicticos criam personagens nos seus delrios 
para no serem esmagados pela solido.  Olhou rapidamente para 
todos os que rangiam os dentes contra ele e disparou estas perguntas: 
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O Semeador de Ideias 

 Ser que os religiosos que Te exaltam consideram que Tu no tens 
sentimentos? Negaro eles que Tu tenhas emoo e necessidades? 
No projecta o escultor os seus secretos sentimentos na forma das 
suas esculturas, nem o artista plstico nas nuances dos seus quadros? 
Bem sabes que o artista produz as suas obras por necessidades 
intraduzveis! 
Nesse momento, fez uma pausa para respirar. Tinha perdido tudo 

o que amava, s lhe sobrara o calabouo da culpa. Pouco a pouco, ns, 
os seus amigos ntimos, fomos entendendo que queria encontrar uma 
fresta de luz para sair daquele crcere. Mas como? Respostas filosficas, 
religiosas, biolgicas e psicolgicas simplistas no aquietavam o 
seu complexo e dilacerado intelecto. Conhecia a teoria antropolgica 
de Edward Taylor, e os seus erros, e sabia que ela fundamentara o banimento 
de Deus da sociedade por Vladimir Ilitch Lenine e por outros 
lderes socialistas. Sentia-se tambm completamente insatisfeito com 
o debate dos que advogavam o design inteligente e com os ateus naturalistas. 
Tinha sede de respostas mais profundas. Por isso realizava 
uma mesa-redonda sobre as suas gritantes inquietaes, ainda que s 
se ouvisse a sua voz. 
 Responde-me, Eterno: ainda que sejas o Pai da tranquilidade, 
a ausncia do espao-tempo foi para Ti um quarto escuro inexprimvel 
que Te produziu uma sede borbulhante de relacionamentos? 
Eu sou intelectualmente dbil, mas permite-me perguntar-Te: foi a 
eternidade passada uma priso que provocou a abertura das janelas da 
Tua mente como Todo-Poderoso gerando-Te uma exploso criativa, 
transformando-Te no Autor da existncia desse insondvel universo? 
As pessoas que o ouviam entreolhavam-se, tentando assimilar a 
dimenso da ltima pergunta. Mas no dava tempo. Toda a sequncia 
de perguntas tinha uma lgica e preparava o terreno para ele abordar 
finalmente aquilo que tocava as entranhas do seu ser: 

 O universo  um mero caldeiro de fenmenos fsicos aleatrios 
ou existe para distrair a Tua emoo? A humanidade  fruto 
do acaso da seleco natural ou existe para encantar a Tua emoo e 
resolver a Tua solido? 
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Augusto Cury 

Ao ouvir essas palavras, a minha mente entrou num remoinho 
reflexivo. Sabia que o Semeador de Ideias tinha sido um dos mais 
ardentes ateus da histria. Mas mudara o seu pensamento. No passado, 
ele pensava que a procura de Deus era fruto de um crebro frgil 
e tmido, mas implodiu o seu atesmo depois de estudar mais a fundo a 
fsica, a psicologia e a filosofia do caos. Passou a entender que a busca 
de Deus por todos os povos em todas as eras, independentemente de 
uma religio, era um acto inteligentssimo de um crebro apaixonado 
pela existncia, que procurava em desespero transcender o caos da 
inexistncia na solido de um tmulo. 

Com o tempo, compreendeu que tanto o atesmo radical como 
a religiosidade fundamentalista so sustentados por crenas em verdades 
inquestionveis, gerando comportamentos exclusivistas. Duas 
semanas antes da notcia do acto terrorista, falou-nos das suas concluses 
sobre o caos imposto pela morte. 

Comentou que o corpo humano tem cerca de trs mil bilies de 
clulas, e nenhuma delas estava geneticamente programada para a 
solido da inexistncia, preparada para morrer. A morte era inevitvel, 
mas no era natural para o cdigo gentico. Sobreviver era a meta 
ltima desse cdigo. Por isso, quando uma pessoa entrava numa situao 
qualquer de risco, bilies de neurnios protestavam, produzindo 
milhares de reaces para a fuga ou para o confronto com o risco. At 

o acto suicida gerava um protesto cerebral solene em favor da vida, 
capitaneado pela taquicardia e pelo aumento da frequncia respiratria. 
Para ele, mesmo o cancro representava a sede pela continuidade 
da existncia biolgica, embora promovida por genes egocntricos, e 
ainda que trouxesse graves consequncias. A clula cancergena abandonava 
a unidade corporal e seguia a carreira a solo de ser jovem para 
sempre, multiplicando-se incontrolvel e egoisticamente, gerando 
uma competio predatria por nutrientes com outras clulas. 
O Semeador de Ideias devorava livros todas as noites. A sua 
mente era um caldeiro de informaes das cincias naturais e humanas. 
O cardpio do conhecimento, para ele, no era compartimentado 
ou separado. Ao encerrar o seu pensamento sobre a filosofia do caos, 

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O Semeador de Ideias 

citou tambm as reaces dos pensadores que o atravessaram e destacou 
Charles Darwin. Momentos antes de morrer, no meio de nuseas 
e vmitos, Darwin clamava: Meu Deus, meu Deus! Disse-nos 
que o clamor de Darwin no era o reflexo de um crebro frgil, mas 
de um crebro que lutava com bravura pelo alvio e pela continuidade 
da existncia, ainda que considerasse utopicamente a morte um processo 
natural. 

Comentou que Darwin era um agnstico, mas que tanto agnsticos 
como msticos, tanto ateus como no ateus, todos fogem inexoravelmente 
da mais penetrante solido, a solido da inexistncia, a 
solido de no ser. A perda da conscincia de si mesmo resultante 
da desorganizao do crtex cerebral quando se morre e a consequente 
perda irreversvel de bilies de informaes que financiam a 
identidade da personalidade geram o caos absoluto, unem o ser com 

o nada. 
Na ocasio, para nosso espanto, disse-nos ainda que quem reflectisse 
algumas horas sobre esse caos jamais seria o mesmo. Entenderia 
que a grande questo no era se Deus existe ou no, nem quem venceria 
o debate, se religiosos ou ateus. A grande questo era que Deus 
precisava de existir, caso contrrio, ateus e religiosos seriam ambos 
destroados no caos da inexistncia, extinguir-se-ia a liberdade de ser 
e a de pensar. Teria de haver um Deus com uma capacidade muito 
maior do que qualquer imaginao religiosa para resgatar as informaes 
do crtex cerebral que se perderam com a morte. Caso contrrio, 
seramos mera poeira csmica. Alguns de ns estariam nas pginas da 
histria para nos fazer pensar que fomos algo no passado e disfarar o 
angustiante facto de que seremos nada, simplesmente nada, no futuro. 

Ao recordar essas palavras, entendi por fim que no era a solido 
social ou a solido do auto-abandono que perturbava a mente do 
Semeador de Ideias e estimulava o seu debate com Deus, mas a solido 
da inexistncia. Como era um homem que pensava muitssimo, tentava 
sobreviver a essa solido,  morte como fenmeno silenciador da 
vida, para ter esperana de que os seus filhos no tivessem morrido 
para sempre. Quase esgotado, continuou a sua clida inquirio. Desta 

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Augusto Cury 

vez deixou embasbacados at os religiosos que odiaram os primeiros 
embates. Entrou no campo que eles conheciam, mas no usou a 
espiritualidade, e sim os alicerces da psicologia. Amarrou as ideias que 
proferiu num feixe e deu-lhes um choque intelectual. Constrangidos, 
engoliram a voz. 

 Se conheces,  Altssimo, a minha mente, Tu sabes das indagaes 
que me abalam. Diz-me: por que razo no primeiro mandamento 
suplicas aos seres humanos que Te amem acima de todas as 
coisas, de toda a sua alma, sua fora e seu entendimento? Tal splica 
no  estranha s teses sociais e polticas? No est ela na contra-mo 
de todos os grandes lderes da histria? Todos os reis exigiram 
a servido. Todos os ditadores determinaram a obedincia. Mesmo os 
polticos mais democrticos sonharam com a bajulao. Mas Tu, diferente 
deles, reivindicas o amor. Que necessidade psquica  essa? Por 
que Te rebaixas a esse ponto de suplicar que Te amem? No esconde 
subliminarmente esse mandamento a Tua eterna solido, forjada nas 
entranhas do Teu isolamento antes de existir o espao-tempo, que 
anseia por ser saciada? A Tua necessidade gritante de amor mostra 
que, embora eu e Tu sejamos muitssimo diferentes em poder, somos 
semelhantes em carncias. 
Nesse momento, parece que todos os presentes, inclusive os que 

o agrediram, foram conduzidos a um jardim por aquelas perguntas. 
O Semeador de Ideias desejou interromper a sua fala, mas no conseguiu. 
No queria concluir a sua tese, uma vez que ela defenderia 
Deus e o faria perdedor. Ela revelaria por que razo o Todo-Poderoso 
no agia na humanidade como ele desejava. As suas prprias palavras 
abalaram-no. 
 A splica pelo amor dessa dbil humanidade expressa uma procura 
por algo que o Teu poder no Te pode propiciar. O Teu poder 
pode fazer muito mais do que a minha imaginao consegue pensar, 
mas no pode fabricar seres que Te amem. Bem sei que o amor no 
pode ser comprado, negociado ou transferido. O amor no cresce no 
terreno da coaco, da fora e do controlo. Ele exige os terrenos frteis 
da liberdade e espontaneidade para florescer. S se ama quando se 
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O Semeador de Ideias 

 livre! Por isso, Eterno, concluo que o Teu Poder se transformou no 
Teu grande problema. Se o usasses para resolver todas as dificuldades 
da humanidade, destruirias a nossa liberdade e eximir-nos-ias da 
nossa responsabilidade. Se atendesses a todos os desejos humanos na 
velocidade que queremos, em pouco tempo ns seramos os Teus deuses 
e Tu serias para ns um servo. Quem Te amaria? Terias aduladores, 
interesseiros, mercantilistas, manipuladores, perdulrios, prdigos, e 
no filhos que Te amariam pelo que Tu s. 

Em seguida colocou as duas mos no peito, fez uma pausa e, percebendo 
que tinha sido injusto com o Autor da existncia, falou com 
brandura: 

 Eu sei o que  ter aduladores! Hoje sou um indigente, um miservel 
que anda pelas ruas tentando entender o significado da existncia. 
Mas j tive mais poder que reis e polticos. Fui aplaudido como 
raras celebridades, cortejado como poucos poderosos. Fileiras de 
pessoas gravitavam na rbita do que eu tinha. Tolo, pensei que elas 
me amavam. Ningum passou no teste do stress emocional. Quando 
perdi tudo, perdi todos.  Ento chorou e acrescentou:   melhor ser 
atirado aos lees do que aos bajuladores: os lees matam-nos rapidamente; 
os bajuladores, aos poucos. 
Fui torpedeado com essa ideia, porque, quando tive uma crise 
depressiva grave, os meus amigos da universidade tambm desapareceram. 
No restou um intelectual ao meu lado. Depois de perceber 
que estava errado, o homem que seguamos dissecou publicamente a 
sua miserabilidade e reconheceu os seus erros. Usou o seu poder para 
comprar o que no est  venda no mercado. 

 Como resolver a minha solido? A saudade dos meus filhos 
despedaa-me. Beijos, abraos, afagos, entregas, dilogos, atitudes 
to simples mas insubstituveis. Viajei pelo mundo, percorri todos os 
continentes como um conquistador para descobrir que aquilo de que 
eu mais precisava j possua. E no o valorizei.  Nesse momento, ao 
lembrar-se dos seus queridos filhos, colocou as mos sobre a cabea. 
J no estava magoado com o Autor da existncia, mas clamou, 
inconformado: 
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Augusto Cury 

 Por que Te calas quando as crianas morrem soterradas em terra-motos? Por que Te silencias quando a fome comprime os seus magrssimos 
corpos? Por que no ages quando nos acidentes os seus pulmes 
se asfixiam e o flego de vida se estanca? Ou ages e no sabemos? 
Ou acolhe-las no Teu peito, no seio da eternidade, quando os seus 
pequenos coraes deixam de pulsar e no nos contas? Se amas, sofres; 
se sofres, por que optas pelo silncio? O Teu silncio sustentou durante 
anos o meu cptico atesmo! Choras nas prprias lgrimas das crianas? 
Tremulas na angstia inexprimvel dos pais que perderam seus filhos? 
Eu convido-Te a penetrar no turbilho da minha culpa, nas entranhas da 
minha crise depressiva e no crcere das minhas loucuras. Estou s, profundamente 
s. Tento esquecer-Te, mas ocupas a pauta da minha mente. 
Pela primeira vez olhou ao redor e viu a plateia com olhos lacrimejantes. 
E de sbito lembrou-se de Friedrich Nietzsche, o filsofo 
alemo que muitos consideravam um dos grandes ateus da histria, 
mas que surpreendentemente era um anti-religioso, e no um ateu. 
Recitou para os cus o poema de Nietzsche, Ao Deus Desconhecido, 
como se exalasse a sua prpria mente. 

Antes de prosseguir no meu caminho e lanar o meu olhar para a frente 
uma vez mais, elevo, s, as minhas mos a Ti na direco de quem fujo. 
A Ti, das profundezas do meu corao, tenho dedicado altares festivos 
para que, em cada momento, a Tua voz me pudesse chamar. 
Sobre esses altares esto gravadas em fogo essas palavras: 
Ao Deus desconhecido. 
Teu, sou eu, embora at o presente me tenha associado aos sacrilgios. 
Teu, sou eu, no obstante os laos que me puxam para o abismo. 
Mesmo querendo fugir, sinto-me forado a servir-Te. 
Eu quero conhecer-Te, desconhecido. 
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilho, 
invades a minha vida. 
Tu,  incompreensvel, mas meu semelhante, 
eu quero Conhecer-Te. 


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O Semeador de Ideias 

Depois de recitar o poema, fez uma pausa prolongada e suspirou 
fundo. Aumentou o tom de voz e tocou em assuntos proibidos. 
Entrou nas fronteiras da psicologia e da sociologia. Aos brados, comoveu 
quem o escutava. 

 Sabes o que  perder um filho? Choraste como eu chorei? 
Desesperaste como eu me desesperei? O que representa o carpinteiro 
de Nazar para Ti? Apenas um filho da humanidade? Era o Teu filho 
quem tremulava numa trave de madeira? Se era, foi a primeira vez na 
histria que um pai viu um filho sangrar e no o resgatou, embora 
tivesse todo o poder para faz-lo. No tive essa oportunidade. Por que 
no a aproveitou? No limite das suas foras, o homem Jesus abriu os 
seus debilitados pulmes e clamou: Eli, Eli, lema sabactani? (Deus 
meu, Deus meu, por que me abandonaste?) Ele no Te pediu vingana, 
nem anestsicos, muito menos glria, mas apenas o Teu ombro 
para chorar enquanto morria. A dor da solido magoava-o mais do 
que a dor fsica. Mas Tu viraste o rosto para no o veres a agonizar. 
Choraste de um lado, e ele do outro; foram as lgrimas mais angustiantes 
da histria. Se esses factos foram reais, enquanto Ele morria 
fisicamente, Tu morrias emocionalmente. Que sacrifcio  esse, 
 Desconhecido? Seis horas de agonia foram mais longas do que a 
eternidade passada. Para qu? Para investir numa humanidade falida? 
Que amor  esse que chegou s ltimas consequncias? O Semeador 
recuperou o flego e emendou: 
 No entendo esse amor, ele ultrapassa os limites da razo. 
Se preciso fosse, sangraria as minhas mos lapidando rochas para 
reencontrar os meus filhos. Daria todo o dinheiro e os bens de uma 
vida inteira em troca de mais um dia com a presena deles. Seria 
objecto de vergonha social, atravessaria os vales do desprezo, aceitaria 
ser cuspido, vaiado, pisado e caluniado para t-los nos meus braos. 
Resgat-los-ia dos destroos do avio em chamas vivas, se pudesse. 
Mas a morte enterrou a minha lista de oportunidades 
Dos seus olhos corriam lgrimas como chuvas torrenciais. No 
conseguia interromper as imagens dos ltimos instantes com as suas 
crianas e a sua esposa. 

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Augusto Cury 

 Filhos, tenho muita pena, mas tenho de viajar para o Mdio 
Oriente com urgncia. Preciso de me reunir com os prncipes do 
petrleo. 
Julieta, a filha de sete anos, cabelos encaracolados, activa, alegre 
e intrpida, retrucou, entristecida: 

 Outra vez, pap? J contei dez vezes que tu desmarcaste compromissos 
comigo este ms. No foste ao aniversrio da Mariana, no 
foste ao parque, no jogaste vlei comigo, no foste  reunio com os 
professores 
Em seguida, a menina parou de descrever as falhas do pai, 
agarrou-se ao seu pescoo e beijou-o dez vezes para o lembrar 
dos dez compromissos desmarcados e para mostrar que, apesar 
de tudo, o amava muito, no pelo que ele tinha, mas pelo que era. 
Insistiu: 

 Vamos, pap. Deixa as pessoas trabalharem para ti. Vamos! 
 E agarrou-lhe delicadamente nas mos para o levar para o avio. 
Ele ficou sem flego com a atitude meiga de Julieta. Fernando, 
de nove anos, orgulho do pai, humilde, afectivo, socivel, que gostava 
de ter longas conversas com os empregados da famlia, tambm 

o questionou: 
 No somos mais importantes do que os teus compromissos, 
pap? 
Constrangido, o pai afirmou: 

 Sim, Dod, sem dvida! Mas trabalho para vocs. Dod era o 
nome carinhoso pelo qual tratava o Fernando. A partir do segundo 
ano de vida, o menino comeou a chamar ao seu av, pai do seu pai, 
no de vov mas de Dod, e o av alcunhou o menino com esse nome. 
A alegria do av era o pequeno Dod, mas faleceu cedo. Depois de o 
pai dizer que trabalhava para eles, o menino assestou-lhe um golpe 
certeiro com inteligncia e afectividade: 
 Mas, pap, de que adianta dares-nos o mundo todo se no 
temos o teu mundo, se no te temos a ti? 
O poderoso homem caiu do cu para a terra. A frase penetrou 
como uma lmina na sua mente. 

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O Semeador de Ideias 

Enquanto se tentava recompor, a sua filha Julieta abalou-o de 
novo, mais at do que o seu filho: 

 Vamos fazer um acordo, pap Quero trocar todos os presentes 
que tu me vais dar este ano  Enxugou os olhos com as mos 
e completou:   por um s presente: passar uma semana inteira 
comigo! 
Comovido e quase sem palavras, fez um sinal de continncia para 
a filha, como se estivesse a obedecer s ordens de um general. 

 Prometo, fofinha!  disse carinhosamente  filha. 
Aquelas recordaes perturbaram ainda mais a sua mente naquela 
praa. Era um homem bom, um megaempresrio preocupado com 
a sociedade e com projectos humanitrios, mas fez do excesso de trabalho 
a sua loucura. Era viciado em actividade, um escravo numa 
sociedade livre, ptimo para o sistema, mas um carrasco de si prprio. 

Tentando esconder as lgrimas, abraou os filhos e beijou-os 
vrias vezes, na testa, na cabea e nas faces. Fez ccegas ao Fernando, 
desmanchou os cabelos da pequena Julieta e completou: 

 Esperem por mim, vou surpreend-los. Acreditem, apanharei 
o prximo voo. 
Momentos depois voltou-se para a esposa, Jlia, e deu-lhe um 
prolongado beijo. Chamava-lhe carinhosamente Morena, devido aos 
seus cabelos encaracolados e escuros. Era uma mulher alta, esguia, 
bela. 

 Morena, quanto mais o tempo passa, mais linda ficas. 
Ela agradeceu, mas no conseguiu esconder a sua clida tristeza. 
E pela primeira vez foi completamente honesta com ele: 

 Ns estamos a perder-te. Tenho muitas saudades do tempo em 
que tu vivias no anonimato e tinhas pouco dinheiro. Cozinhvamos, 
brincvamos e sonhvamos juntos. Hoje, s cortejado por prncipes 
e presidentes, passas mais de treze horas por dia a trabalhar, viajas 
todas as semanas para um pas diferente, fazes reunies de trabalho 
aos fins-de-semana. At na cama sinto que tu no s meu. Onde est 
o homem simples que me encantou? 
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Augusto Cury 

Ele respirou fundo. As suas dvidas eram grandes. E reconheceu-as. 


 Sei que j no sou o mesmo, Jlia. O excesso de compromissos 
roubou-me o tempo e o romantismo. Sinceras desculpas.  Parou por 
um momento de falar, pois sentiu um n na garganta.  Mas acredita, 
eu amo-te. Deixarei o front das empresas e serei em breve apenas o 
presidente do conselho. Serei outro homem. Obrigado por no desistires 
de mim  e beijou-a de novo, longamente. 
Nisto, a funcionria da companhia anunciou a ltima chamada 
para o voo. ltima chamada, ltimos beijos, ltimos abraos, ltimos 
dilogos, ltimos encontros. O multimilionrio empobreceu 
ao mximo. No teve tempo de reescrever os textos da sua histria. 
Entre ele e a sua famlia ficou um eterno silncio e um vazio 
inexprimvel. 

Depois de recapitular esses momentos, o Semeador de Ideias 
ergueu os seus olhos para o alto e disse: 

 Se s Todo-Poderoso e tens carncia de amor, imagina eu, frgil, 
fbico, que morro todos os dias um pouco. Se Tu tens solido, 
imagina eu, que nem sequer vi os corpos de Fernando, Julieta e Jlia 
para os enterrar. No h clulas que em mim no doam nem ossos que 
em mim no gemam. 
Apesar de estar de rastos, derrotado, conseguiu levantar-se cambaleante. 
Tomou flego e aumentou o tom das discusses. Quanto 
mais argumentava, mais sentia que estava a perder o debate, porm 
resistia a entregar-se. 

 Sei que no s responsvel pelas minhas falhas e omisses, mas, 
se Tu s o director do script da existncia, por que no me ensinaste a 
matemtica da emoo para poder aprear o que no tem preo? Por 
que no gritaste aos meus ouvidos: Ei! Louco, acorda!? Por que fui 
eu o ateu dos ateus? Condenas os que no crem em Ti? Por que sou 
imperfeito, errante, dbil? Por acaso os que crem em Ti foram perfeitos? 
Os discpulos do homem Jesus no lhe davam frequentes dores 
de cabea? 
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O Semeador de Ideias 

Ele sabia que era indefensvel, mas mesmo assim tentou fazer a 
sua defesa tirando a mscara por completo: 

 O mais forte deles, Pedro, no Te negou trs vezes, vexatoriamente, 
diante de servidores humildes? Sei que tambm Te neguei, e 
por dzias de vezes, mas pelo menos foi para os grandes da sociedade. 
Judas, o mais culto dos discpulos, no Te traiu por trinta moedas de 
prata, pelo preo vil de um escravo? Tambm Te tra, eu sei, mas pelo 
menos fui mais inteligente do que Judas. Dei-Te as costas por milhes 
de dlares, por toneladas de prata. 
Caiu novamente de joelhos, esgotado, dilacerado. Quase sem foras, 
partiu para o embate final e disse as suas ltimas palavras: 

 Mas escuta-me, Altssimo. No acto da negao, o homem 
Jesus cruzou o seu olhar com o de Pedro e, o que  espantoso, gritou 
sem dizer palavras: Eu compreendo-te! Eu compreendo-te! Que 
homem  esse que compreende os que o golpeiam? E, no acto da traio, 
chamou a Judas amigo, abrindo uma janela para que se repensasse. 
Que homem  esse que abraa os que o apunhalam? E eu? 
Quem compreendeu a minha estupidez? Quem me chamou amigo 
quando me desintegrava no caos? Pedro reescreveu a sua histria, 
e Judas, ao contrrio, sucumbiu diante dela, puniu-se, deprimiu-se 
e ceifou a sua vida. Como ele, atolei-me na lama da culpa e da 
indecifrvel perda. Puni-me, deprimi-me e, por fim, fui depositado 
como objecto num hospital psiquitrico. Todos me abandonaram, 
inclusive eu prprio. E Tu? Tu permitiste-me ser um coleccionador 
de lgrimas. 
Nesse momento, ajoelhado, tentava em vo enxugar as lgrimas 
com as mos. Um judeu ortodoxo, embora no concordasse com 
algumas das suas palavras, ficou embasbacado com os seus argumentos. 
Juntou-se a um lder islamita, a um sacerdote cristo e a um 
monge budista, que tambm estavam perplexos com o que ouviram, 
e aproximaram-se dele. Tomados pela compaixo, levantaram-no 
e abraaram-no. Mancharam as suas roupas de sangue, mas no se 
importaram. Perguntaram-lhe: 

 Quem s tu? 
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Augusto Cury 

 Quem sou?  Confuso pelo dramtico stress e pela violncia 
dos traumas que sofrera, tentou responder:  Tento ser um pequeno 
semeador de ideias para dar significado  minha vida. 
 Mas qual  o teu nome? Onde moras? 
 No tenho morada certa, sou algum em busca de mim mesmo. 
Eles ficaram confusos. Sabiam, entretanto, que era um homem 
com uma dvida impagvel. Tentando soprar-lhe uma brisa de consolo, 
acrescentaram a uma voz: 

 Deus pode perdoar-te, meu filho. 
O coleccionador de lgrimas agradeceu-lhes comovido e completou: 


 Sei que o Arteso da existncia pode perdoar as loucuras dos 
homens, e quem sabe as minhas tambm. Mas o meu problema  eu 
perdoar-me a mim mesmo. 
Nesse instante, olhou ao redor e viu-se rodeado de amigos que 

o amavam. Rico, viveu isolado no meio das multides; miservel, 
construiu notveis relaes. Chegou a vez de os discpulos ajudarem o 
Mestre. Usmos um dos seus cortantes pensamentos para o instigar: 
 Mestre, no traia as suas palavras. Voc mesmo nos disse que 
a maior vingana contra um inimigo  perdo-lo. Perdoe-o, e ele 
morrer dentro de si; odeie-o, e ele viver no centro da sua histria e 
aterroriz-lo- dia e noite 
O intrigante debate que realizou, somado ao impacte das nossas 
palavras, refrigerou-lhe a mente, pelo menos um pouco. Era preciso 
aceitar a sua falibilidade e deixar de mutilar a sua emoo pela auto-punio. Era preciso tambm sepultar os filhos de uma vez por todas 
no seu psiquismo e continuar a escrever a sua histria. 

Eram grandes decises e, como tais, solitrias. Se no as tomasse, 
a perda tornar-se-ia um crcere psquico, que bombardearia a sua 
mente com ideias pessimistas; a sua mente pessimista, ento, asfixiaria 

o seu prazer de viver e geraria uma depresso que se arrastaria continuamente 
e contaminaria toda a sua agenda existencial. Transformar-se-ia 
num zumbi, num morto-vivo. 
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